Lembro-me de um professor que em uma de suas crônicas ficava imaginando "que aventuras maravilhosas não perdem aqueles que deixam de escrever o que sentem". Lí esse trecho inteligente e pensei: "É... não posso perder tais aventuras". Eis elas então, para vocês, com grande carinho, em versos e prosas.
Obs: Seus comentários serão bem-vindos!
Professor. Bacharel em Turismo, Especialista em Ecoturismo, Licenciado em Geografia - UFC, Mestrando em Geografia - UFC Pesquisa na área de Geografia do Turismo, Geografia da Religião, Geografia Cultural e Geografia e Ensino. Amante da sabedoria.
“Modo de escrever”, indica o “pai dos burros” é o significado de grafia. Contudo, como pensar o mundo, a vida, enfim, a vida no/do mundo sem pôr tal palavra no plural? Pluralidade, realidade sem igual, reveladora de escritas bem dizer inscritas na política, economia e cultura, da popular a erudita, de quem sabe e de quem não sabe o que faz, mas faz.
Porque o ser humano é assim: Fazendo uso, sem abuso, de seu conhecimento, seja empírico, científico, certamente onírico; escreve, desenha e, nunca a contento, faz uso do “re” para assim (re)fazer o primeiro, e ainda então único, invento.
Na pluralidade dessa escrita, não há quem não admita: São as grafias geométricas por vezes homéricas que fazem da Terra o mundo do homem. Porém, um mundo desumano, porque pousa na geograficidade, como diria Eric Dardel, o mais importante “re”; o (re)conhecimento que este pedaço celeste e mundano não somente é humano, haja vista também irracionalmente animal, primitivamente natural. Falta a muitos de nós tal percepção.
É com uma consciência sagrada, mediante uma Terra profana, que as grafias nos revelam o quanto as coisas do mundo se atrelam mesmo quando diferenciadas. Eis a teoria do Caos.
A grafia é a marca humana que suplanta a tenra geo (Terra). As grafias, diversidades mundanas cada uma com o seu papel. A geografia, grafia histórica, porém presente, moderna e também pós-moderna, preocupada com as coisas da Terra; migrações, chuvas, inundações, economias, culturas, políticas e, hoje até mesmo, com as emoções daqueles que fizeram e fazem uso da geografia para fazer a guerra, como revelara o magistral Yves Lacoste.
Das grafias a que mais amo, que fique claro, é a geografia! Geografia ciência moderna, portanto, moleca sapeca ainda com muito a aprender. Geografia menina criança, sempre em busca de espaços de esperança para que o ser humano no mundo possa melhor viver... Que o diga David Harvey. Geografia que sempre a contento deixa o geógrafo ao relento a observar, anotar, interpretar e ler. Geografia que tira os alunos da jaula, também conhecida por sala de aula, para mostrar-lhes a coisas do mundo, o mundo das coisas, tão difíceis, por vezes, de se realmente ver.
Essas são as grafias mundanas, porque ser humanas, importantes de se aprender, amar e viver.
Singelas, magrelas, com grades, sem grades ou com telas, tenho pensado com certa frequência nas janelas. Tenho pensado, em realidade, exatamente nas realidades que tais grandes orifícios de/no concreto tendem a nos oferecer.
(Ir)realidades paisagísticas, porque as janelas são sempre imparciais ante as parcialidades daquilo que mostram, daquilo que a partir delas podemos ver. Significantes muitas vezes sem significados. Transeuntes pobres, ricos, bem vestidos, esfarrapados “indignificados” perante os olhos de quem realmente não vê. Dependem de quem olha. Quanto a isso Saramago, em epígrafe retirada do Livro dos Conselhos de El-Rei D. Duarte, é claro ao dizer: “Se podes olhar, vê. Se podes ver, repara”. E é no reparar das coisas da vida, inclusive as sem vida, que nos tocamos o quanto deixamos passar as coisas que devem ser vividas, as coisas pelos quais vale a pena viver.
Nas bordas das singelas janelas, por exemplo, são inúmeras as pós-modernas donzelas que não mais vêem seu amado passar. Não vêem seus amados, não porque estes passam agora de carro ou ônibus, não raro no embalo, mas sim, porque simplesmente não reparam e, se reparam num estalo percebem o quanto alto no prédio se estar. Tão alto para amar...
Nas bordas das magrelas janelas dos carros com ar-condicionado ou dos ônibus comumente lotados, simulacros são criados, como diria Baudrillard. O dentro e o fora não vêem a hora de se encontrar. Mas o vidro, do mais tênue ao blindado, não permite ao menino pobre e danado uma esmola pedir, nem mesmo ao ladrão, muitas vezes drogado e armado, roubar e fugir.
Janelas, dessa maneira, não são passagens, são muros. Muros que a sociedade contemporânea cada vez mais constrói ante as mazelas e miasmas dos espaços de infelicidade. Muros que existem porque ninguém tem tentado pô-los ao chão, assim como fizeram com o de Berlim. São meros espaços de ventilação, isso quando a tenra brisa permite-se passar pelas estruturas de concreto apontadas para o céu das cidades.
Não temos que abrir as janelas para aquilo de ruim que a sociedade constrói! De maneira alguma. Temos somente, mas não simplesmente, que construir passagens, os quais podemos denominar de possibilidades de inversão do olhar. Um olhar de fora para dentro como se estivéssemos em realidade olhando com um olhar crítico os observadores de dentro, para ensiná-los a realidade daqueles que estão do lado de fora. Fora da sociedade: os excluídos. Fora do mercado de trabalho: os desempregados. Fora da justiça e do justo social: os desajustados. Fora da vida cotidiana e sem esperanças: os desesperados.
Quando disse em princípio que tenho pensado com certa frequência nas janelas. Tenho pensado nelas de fora para dentro. Nos que estão do lado de fora e não podem entrar. Nos indivíduos os mais indistintos a se digladiar em sua (sobre)vida.
Embora saiba que pensar sobre isso seja muito fácil – mais do que atuar sobre isso – vale, pelo menos de início, refletirmos sobre os espaços distintos separados pelas janelas. Pelas janelas do apartamento, da casa, do carro, do ônibus... Pelas janelas da vida, certamente, mais difíceis do que as portas para passar, afinal são somente janelas. Não foram feitas para nos dar passagem, mas sim, acima de tudo, foram feitas para dar passagem ao olhar.
Para falarmos no conteúdo das cartas de amor – sua alma – há de falarmos em princípio nas cartas de amor de antes e nas cartas de amor de hoje.
Antes, o apaixonado escritor em linhas quase não retas, porque em papel branco sem linhas, com pena molhada em tinta serena, lápis ou caneta, apontava e não desapontava ao declamar palavras escritas como notas de uma linda melodia. Tomava boa parte do seu tempo a pensar, a escolher e procurar as palavras escondidas no fundo do seu coração, palavras que o representassem, palavras estas que perfurariam de emoção o coração de sua amada, naquele especial instante a tomando de paixão.
Tal prosa poética, carta nada patética, era a tentativa de expressar racionalmente a beleza da incompreensão humana, porque o amor era, já naqueles tempos, incompreendido, bem mais do que incompreensível.
A carta, uma obra de arte, “objetivação do subjetivo”, como dissera o poeta Fernando Pessoa, era milimetricamente lacrada e docemente perfumada. Representava uma parte do corpo do seu autor, a parte mais sublime, de conteúdo invisível, atingindo somente àquele que a recebera com amor, àquele que com o coração podia a carta ver e ler. Eis a antiga carta de amor.
Hoje, existem formas diferentes para dizer: “Eu Te Amo”. Por meios técnico-informacionais diversos, pode-se dizer o quanto gosta rapidamente e para todo o mundo “ouvir”. Os acessamos e a máquina logo avisa: “Você tem uma nova mensagem” ou mesmo “você recebeu um novo depoimento”. Ah, a alegria de quem recebe é enorme, não importa de onde o “escritor” apaixonado copiou o poema para postar no depoimento ou de quem antes recebeu aquela mesma mensagem. O que vale é a intenção.
Tal prosa apoética nem mesmo de linhas necessita, pois o alinhamento pode ser justificado, colocado à direita, à esquerda ou mesmo centralizado. Não dá espaço aos erros, nem mesmo aos mais sutis ou àqueles inocentes, pela máquina, não inocentados. Eis a contemporânea carta de amor.
Não quero aqui parecer saudosista, mas digo: Meus caros escritores de e-mail e orkuteiros de plantão, para seu amado ou sua amada sejam inventivos, imaginativos, criativos, tudo isso de uma forma apaixonada. Mesmo por intermédio da máquina sem coração, da Internet sem emoção, apontem o dedo – sem desapontar – para as letras do teclado de modo certeiro e elaborem lindas melodias em forma de palavras para quem você ama. Cartas de amor que podem ser escritas no MicrosoftWord, mas que nem por isso deixarão de estar recheadas de palavras verídicas provenientes do coração. Estas palavras irão soar para os ouvidos de quem as lê como as mais belas palavras musicadas de amor. O problema de tais cartas não é, portanto, o plano em que são elaboradas, mas sim o seu conteúdo.
E já que falamos de conteúdo... Este conteúdo, pelo menos, tem conseguido continuar o mesmo apesar das hibridizações e modernismos. Isso me alegra. Esse conteúdo é o próprio amor (atemporal) que, no prosaísmo das cartas contém uma poética onde o ápice é a união entre a loucura e a sabedoria, como dissera o grande pensador Edgar Morin ao falar do amor.
É deste modo que as verdadeiras cartas de amor eram, são e sempre deverão ser: sabiamente tecidas, e acima de tudo... loucamente apaixonadas.
Oi pessoal, este poema já postei antes por aqui, mas como ele foi recentemente publicado em um jornal local, o posto novamente juntamente com o link desta publicação. Grande abraço!