segunda-feira, 1 de outubro de 2007


A filosofia nasceu na Grécia como metafísica, a busca pelo princípio de todas as coisas ou pelo significado mais fundamental da existência. A ética apareceu em seguida, quando os filósofos começaram a se ocupar da questão da vida humana. Ethos, raiz da palavra "ética", era o termo usado pelos gregos para definir o modo como as pessoas viviam e conviviam. Hoje em dia usamos a palavra "comportamento" com o mesmo objetivo, para explicar como agimos junto com os outros, como seres que interagem e coabitam. A questão da ética define, portanto, sempre o modo da relação que se tem com o outro.

Aristóteles foi o primeiro filósofo importante que refletiu sobre a ética. Para o autor do clássico Ética a Nicômaco, o maior problema da ética era a felicidade. Ética era a forma de vida que levava à felicidade. A busca da felicidade dava o sentido da vida humana em sua dimensão pessoal e coletiva. A polis, o lugar onde as pessoas conviviam, dependia da ética. E se falar em ética era falar em felicidade, a felicidade como parte da ética tinha um cunho político (palavra que também deriva de polis). Essa dimensão é o que nós perdemos de vista em nossos dias.

A ética e a virtude

Naquele tempo, justamente por ser "sabedoria prática”, sabedoria aplicada à ação, a ética dependia de uma teoria da virtude, ou seja, de uma sabedoria que explicasse como o ser humano poderia fazer-se excelente - o que, para os gregos, significava ser civilizado, bom, belo, rico, culto, corajoso, livre e, sobretudo, filósofo. Por que ser filósofo? Porque o filósofo era aquele que buscava a sabedoria, procurava as respostas melhores e, principalmente, se esforçava para propor as perguntas certas para as questões da vida. O filósofo era o pensador livre e responsável, apto a buscar o sentido passado e presente das coisas e o rumo futuro de sua própria vida, como ser pensante diante da sociedade onde vivia.

A felicidade representava na obra de Aristóteles muito mais do que uma sensação própria a um indivíduo volta do para a alegria ou os prazeres. Não queria dizer bem-estar pessoal nem qualidade de vida, não queria dizer apenar ter saúde ou bens nem realização profissional, nem estar em paz consigo mesmo e com os que vivem ao seu redor, traços do que tratamos como felicidade e que - para além da mera satisfação com mercadorias e bens - podem ser compreendidos e desejados por todos nós. Antes a felicidade era a máxima virtude. Um modo de ser humano sem almejar ser divino nem deixar-se ser mero animal. Não podemos, é óbvio, pensar que a felicidade, tal como a concebia Aristóteles, nos sirva hoje. A felicidade só pode ser pensada com base na sua evolução histórica. Havia, porém, aquele aspecto da felicidade que não consideramos em nossos dias e que precisa ser recuperado. É preciso lembrar que a felicidade era, em Aristóteles, um ideal ético da vida. A vida ética era a vida justa, corretamente vivida por um cidadão, alguém que sabia de seu papel na sociedade, que ao pensar em si levava em conta o todo: família, amigos, sociedade, natureza.

Aristóteles chamava a felicidade de eudaimonia, palavra que continha o termo daimon, espécie de espírito interior, guardião da intimidade, do valor pessoal de cada um. Esse ideal de felicidade era diferente do que apareceu depois com Epicuro, que tratou a felicidade como hedonismo. Hedoné era a palavra grega para significar o prazer. Não o mero prazer da carne, mas também o do espírito. Para Aristóteles, porém, a felicidade tinha uma relação maior com a justiça. Mas, para ambos, a felicidade dependia de uma realização espiritual e também material, pois excluía a miséria e a violência.

Felicidade e conflito

Com o passar dos séculos, os seres humanos permaneceram em conflito com o ideal de felicidade. Apenas no século 18, o filósofo alemão Immanuel Kant voltou a valorizar a liberdade e a dignidade humanas ao formular uma ética revolucionária, que abandonava a tutela da Igreja. Kant via a sociedade submetida à ignorância e à superstição e acreditava que a ética só poderia surgir pela confiança no potencial racional do humano. Acreditava que o pensamento reflexivo, filosófico, libertaria o humano da escuridão da ação impensada. Talvez a felicidade tenha se tornado um ideal difícil demais diante dos limites humanos que envolveram, mais tarde, a descoberta do inconsciente - e de que há mais do que nossa vontade por trás de nossas ações.

Kant disse que o máximo que o homem poderia esperar era ser digno de ser feliz - e não realmente feliz. Hoje, como Kant, alguns consideram a felicidade impossível; outros tratam na como algo banal, mera realização de prazeres pessoais. O desentendimento quanto à felicidade apenas mostra que ela não está bem situada como conceito dentro de nossas vidas. Apenas aqueles que puderem pensá-Ia como potencialidade ética, como algo que se constrói na fusão da vida pessoal com a vida pública, é que podem continuar falando de felicidade. Antes de ser feliz devo perguntar se posso ser ético. Será mais fácil ser feliz.

Marcia Tiburi é filósofa, escritora e artista plástica. Integra o programa Saia Justa, do canal de TV a cabo GNT. filosofia@abril.com.br.

Fonte: Revista Vida Simples – Maio 2007

Um comentário:

Marcela disse...

Muito interessante o seu blog, Tiaguim...
Devia divulgar pra turma... =)

Beijão procê e pra Diana!