quarta-feira, 4 de março de 2009

SOBRE AS CARTAS DE AMOR



Para falarmos no conteúdo das cartas de amor – sua alma – há de falarmos em princípio nas cartas de amor de antes e nas cartas de amor de hoje.

Antes, o apaixonado escritor em linhas quase não retas, porque em papel branco sem linhas, com pena molhada em tinta serena, lápis ou caneta, apontava e não desapontava ao declamar palavras escritas como notas de uma linda melodia. Tomava boa parte do seu tempo a pensar, a escolher e procurar as palavras escondidas no fundo do seu coração, palavras que o representassem, palavras estas que perfurariam de emoção o coração de sua amada, naquele especial instante a tomando de paixão.

Tal prosa poética, carta nada patética, era a tentativa de expressar racionalmente a beleza da incompreensão humana, porque o amor era, já naqueles tempos, incompreendido, bem mais do que incompreensível.

A carta, uma obra de arte, “objetivação do subjetivo”, como dissera o poeta Fernando Pessoa, era milimetricamente lacrada e docemente perfumada. Representava uma parte do corpo do seu autor, a parte mais sublime, de conteúdo invisível, atingindo somente àquele que a recebera com amor, àquele que com o coração podia a carta ver e ler. Eis a antiga carta de amor.

Hoje, existem formas diferentes para dizer: “Eu Te Amo. Por meios técnico-informacionais diversos, pode-se dizer o quanto gosta rapidamente e para todo o mundo “ouvir”. Os acessamos e a máquina logo avisa: “Você tem uma nova mensagem” ou mesmo “você recebeu um novo depoimento”. Ah, a alegria de quem recebe é enorme, não importa de onde o “escritor” apaixonado copiou o poema para postar no depoimento ou de quem antes recebeu aquela mesma mensagem. O que vale é a intenção.

Tal prosa apoética nem mesmo de linhas necessita, pois o alinhamento pode ser justificado, colocado à direita, à esquerda ou mesmo centralizado. Não dá espaço aos erros, nem mesmo aos mais sutis ou àqueles inocentes, pela máquina, não inocentados. Eis a contemporânea carta de amor.

Não quero aqui parecer saudosista, mas digo: Meus caros escritores de e-mail e orkuteiros de plantão, para seu amado ou sua amada sejam inventivos, imaginativos, criativos, tudo isso de uma forma apaixonada. Mesmo por intermédio da máquina sem coração, da Internet sem emoção, apontem o dedo – sem desapontar – para as letras do teclado de modo certeiro e elaborem lindas melodias em forma de palavras para quem você ama. Cartas de amor que podem ser escritas no Microsoft Word, mas que nem por isso deixarão de estar recheadas de palavras verídicas provenientes do coração. Estas palavras irão soar para os ouvidos de quem as lê como as mais belas palavras musicadas de amor. O problema de tais cartas não é, portanto, o plano em que são elaboradas, mas sim o seu conteúdo.

E já que falamos de conteúdo... Este conteúdo, pelo menos, tem conseguido continuar o mesmo apesar das hibridizações e modernismos. Isso me alegra. Esse conteúdo é o próprio amor (atemporal) que, no prosaísmo das cartas contém uma poética onde o ápice é a união entre a loucura e a sabedoria, como dissera o grande pensador Edgar Morin ao falar do amor.

É deste modo que as verdadeiras cartas de amor eram, são e sempre deverão ser: sabiamente tecidas, e acima de tudo... loucamente apaixonadas.


Tiago Vieira Cavalcante

4 comentários:

Anônimo disse...

Parabéns, jovem poeta!
Que forma belíssima de nos mostrar a versatilidades de nos comunicarmos,falarmos em sentimento. Mas vos digo,para mim, as palavras tem mais efeito quando são expressadas pelo olhar, e,pelo singelo beijo recheado do sentimento mais nobre que o ser humano já teve e tem ,o "Amor".

Ps.: que orgulho que tenho de você.

bjo grande!!

Ingrid Lima

Anônimo disse...

realmente,não há coisa pra se falar melhor do que este sentimento nobre...e quando é nobre que é o amor!
parabéns!

Snug® disse...

Atemporal! O amor e texto. Gostei!

leonardo praciano disse...

boas recordações, sentimentos epistolados parecem sempre carregados de algo mais, mais proteína, mais açúcar, mais sal, mais vinho, mais cheiro, mais pele, parecem carregar o ar e suor de quem os escreveu - isso julga e sente com o coração aos pulos quem lê -, isso, claro, quando as letras e palavras dispostas na carta são como os poros,os pêlos e a saliva de quem as escreveu. Como você bem disse: Procurando as palavras que vão lhe representar.
Acertou em cheio, parabéns.